VIDAS SECAS
DE GRACILIANO RAMOS
A CONCEPÇÃO DO HOMEM
O QUE SÃO VIDAS SECAS?
Por que esse nome? Por que dispor
uma qualidade material a um item abstrato? Sequidão é uma qualidade das coisas
que se aquecem e perdem umidade. Flores secas murcharam, perderam a vida. Se
perde a vida e fica seca, como pode ainda ter vida e essa vida ser seca?
Teremos que partir para um campo metafórico, pois o empírico não nos satisfaz.
Seca pode ser também uma atitude: agiu com secura, sem perdão, sem coração.
Vidas secas são vidas sem esperança, sem chão. Claro que não ficção chão não
falta, o que falta é água na terra e compaixão nos corações dos homens de
corações secos de ódio, ganância e medo ou simplesmente falta de motivação real
para seguir adiante.
A forma ficcional de G. Ramos é ultra-realista. A escrita não preza pelos adjetivos. É muito substantiva. A forma do ser humano ser descrito é observada jornalisticamente, poderíamos dizer, porque não diz mais do que vê, não se perde em divagar pensamentos. Não põe sua opinião à vista. Deixa que o leitor o faça. Esse homem trazido à luz por Vidas Secas é instrospectivo, a família é isolada. Os vizinhos não tem importância, as relações sociais citadas pelo livro apenas servem como exemplos no panorama de degradação psicológica e existencial.
Fabiano não se sente capaz de
zelar pela própria família; tentou em vão alimentar os filhos e esposa. A
mulher também é um ser humano desesperançado. A seca não perdoa. E mesmo fugir
da seca exige que se tenha dinheiro para pagar a viagem. Vai-se a pé, com fome,
sede. Essa é uma realidade difícil até de sonhar. Apenas se segue um passo
depois do outro. De uma fazenda a outra. De uma decepção a outra.
A família é explorada
seguidamente. No armazém, no trabalho, no salário, no jogo...
Sofrendo, uns descontam nos
outros. A rede social da raiva circula de medo em medo e de falta em falta. Os
males das personagens do drama graciliano representam bem os sofrimentos por
que passam os pobres de muitos lugares do mundo. Por isso a obra é universal.
Poderíamos estar vendo, imaginando explorados de diversos lugares do mundo
capitalista, feudal, socialista. O coronelismo que perdura nas terras
brasileiras é um alvo da crítica graciliana.
Sem cama para dormir, Sinhá
Vitória sonha com uma cama, que simboliza no seu contexto uma fixação na terra,
o abandono da vida nômade que leva. Todos tem um grande desejo simbolizado nas
pequenas coisas, nos minúsculos prazeres que advém de uma condição de dignidade
humana básica.
O Fabiano queria ter voz para ter
vez. Não sabe falar como convém. Precisa da fala para adquirir poder neste
mundo, mas a palavra certa na hora certa que falta. Não falta apenas a destreza
no discurso; tudo é causado pela aceitação introjetada, uma resignação ensinada
e aprendida de geração em geração de que as coisas são como são e não podem ser
diferentes, faça o homem o que fizer.
A linguagem, lembremos, é uma das
principais faculdades humanas. Durante muito tempo ser humano significava
consensualmente que se possuía a capacidade lingüística. A retirada de lugar,
sair de um para o outro indica também esse não pertencimento a este mundo.
Vidas secas lembra partes de Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto
que também focou seu texto em descrever as penúrias do homem forte.
O livro de Graciliano nem mesmo
parece concorda com o famoso autor que disse: o sertanejo é acima de tudo um
forte. Até mesmo contradiz a idéia que o resto do Brasil tem de que os
nordestinos em geral são homens agressivos, “brabos”, fortes. Fabiano é tudo,
menos a fantasia criada em ficções fantasiosas. É ficção, pois é fruto da
imaginação do autor, mas não é algo irreal ou utópico, ao contrário, relata
algumas experiências padronizadas, tipológicas que encarnam muitas outras
vivências de séculos de seca.




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