terça-feira, 14 de junho de 2016


VIDAS SECAS
DE GRACILIANO RAMOS
A CONCEPÇÃO DO HOMEM


O QUE SÃO VIDAS SECAS?

Por que esse nome? Por que dispor uma qualidade material a um item abstrato? Sequidão é uma qualidade das coisas que se aquecem e perdem umidade. Flores secas murcharam, perderam a vida. Se perde a vida e fica seca, como pode ainda ter vida e essa vida ser seca? Teremos que partir para um campo metafórico, pois o empírico não nos satisfaz. Seca pode ser também uma atitude: agiu com secura, sem perdão, sem coração. Vidas secas são vidas sem esperança, sem chão. Claro que não ficção chão não falta, o que falta é água na terra e compaixão nos corações dos homens de corações secos de ódio, ganância e medo ou simplesmente falta de motivação real para seguir adiante.

A forma ficcional de G. Ramos é ultra-realista. A escrita não preza pelos adjetivos. É muito substantiva. A forma do ser humano ser descrito é observada jornalisticamente, poderíamos dizer, porque não diz mais do que vê, não se perde em divagar pensamentos. Não põe sua opinião à vista. Deixa que o leitor o faça. Esse homem trazido à luz por Vidas Secas é instrospectivo, a família é isolada. Os vizinhos não tem importância, as relações sociais citadas pelo livro apenas servem como exemplos no panorama de degradação psicológica e existencial. 
Fabiano não se sente capaz de zelar pela própria família; tentou em vão alimentar os filhos e esposa. A mulher também é um ser humano desesperançado. A seca não perdoa. E mesmo fugir da seca exige que se tenha dinheiro para pagar a viagem. Vai-se a pé, com fome, sede. Essa é uma realidade difícil até de sonhar. Apenas se segue um passo depois do outro. De uma fazenda a outra. De uma decepção a outra.

A família é explorada seguidamente. No armazém, no trabalho, no salário, no jogo...
Sofrendo, uns descontam nos outros. A rede social da raiva circula de medo em medo e de falta em falta. Os males das personagens do drama graciliano representam bem os sofrimentos por que passam os pobres de muitos lugares do mundo. Por isso a obra é universal. Poderíamos estar vendo, imaginando explorados de diversos lugares do mundo capitalista, feudal, socialista. O coronelismo que perdura nas terras brasileiras é um alvo da crítica graciliana.

Sem cama para dormir, Sinhá Vitória sonha com uma cama, que simboliza no seu contexto uma fixação na terra, o abandono da vida nômade que leva. Todos tem um grande desejo simbolizado nas pequenas coisas, nos minúsculos prazeres que advém de uma condição de dignidade humana básica.
O Fabiano queria ter voz para ter vez. Não sabe falar como convém. Precisa da fala para adquirir poder neste mundo, mas a palavra certa na hora certa que falta. Não falta apenas a destreza no discurso; tudo é causado pela aceitação introjetada, uma resignação ensinada e aprendida de geração em geração de que as coisas são como são e não podem ser diferentes, faça o homem o que fizer.
A linguagem, lembremos, é uma das principais faculdades humanas. Durante muito tempo ser humano significava consensualmente que se possuía a capacidade lingüística. A retirada de lugar, sair de um para o outro indica também esse não pertencimento a este mundo. Vidas secas lembra partes de Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto que também focou seu texto em descrever as penúrias do homem forte.

O livro de Graciliano nem mesmo parece concorda com o famoso autor que disse: o sertanejo é acima de tudo um forte. Até mesmo contradiz a idéia que o resto do Brasil tem de que os nordestinos em geral são homens agressivos, “brabos”, fortes. Fabiano é tudo, menos a fantasia criada em ficções fantasiosas. É ficção, pois é fruto da imaginação do autor, mas não é algo irreal ou utópico, ao contrário, relata algumas experiências padronizadas, tipológicas que encarnam muitas outras vivências de séculos de seca.